Pomeranos no Vale Europeu

Pomerânia, Pomerode e Estados Unidos: conectados pelas cartas da família Ramthun

Por: Genemir Raduenz, Edson Klemann, Johan Ditmar Strelow e Cláudio Werling
Foto: http://zamkilubuskie.pl/natolewice-natelfitz/
Antiga casa Feudal em Natelfitz na Pomerânia, vila onde o imigrante Heinrich Ramthun nasceu.

Nas pequenas vilas da Pomerânia de onde muitos imigrantes vieram, existem inúmeras "histórias para contar", e a da família Ramthun é especial. Começamos destacando um pouco da vida de Heinrich Ramthun. Na vila de Natelfitz, no Kreis de Regenwalde, a primeira esposa de Heinrich faleceu muito jovem, mas tiveram dois filhos, Wilhelmina e Hermann Ramthun. Ele se casou novamente e, segundo relatos, essa esposa maltratava os enteados, como consequência, os dois filhos abandonaram o lar e foram se abrigar na casa de estranhos.
O filho Hermann, nesta ocasião com nove anos, teve que trabalhar para garantir seu alimento e moradia exercendo a curiosa atividade de "cuidador de gansos" (na Pomerânia haviam muitos criadores de gansos que abasteciam o mercado com penas e carne de ganso defumada). Mais tarde, já um jovem homem trabalhou numa fábrica de cerveja. Hermann e Wilhelmina não mantinham mais contato com o pai Heinrich.
Em 1881, os filhos Ramthun se motivam em deixar a Pomerânia pois Hermann queria escapar do serviço militar, ambos imigram para Elba (condado de Winone Country), no estado de Minnesota, nos Estados Unidos da América. Já o pai Heinrich Ramthun havia imigrado para o Brasil em 1879 com sua terceira mulher, essa, muito mais jovem chamada Johanna Wilhelmina Henriette Pflanz (Heinrich havia deixado a segunda mulher pelos maus tratos com os filhos).
Acervo Ervira Eggert/Filhos de Hermann Ramthun. Registros feitos num estúdio fotográfico na cidade norte americana de Aberdeen.

Ainda na Pomerânia, Heinrich e sua mulher Johanna haviam se mudado para a vila de Piepenburg (Kreis Regenwalde) e, de lá, decidiram partir para o Brasil com suas duas filhas (Anna e Albertina), com a cunhada de Johanna (Augusta Pflanz) e com a mãe de Johanna (Charlotte Pflanz). Chegando no porto de Itajaí, seguiram até Blumenau e no galpão dos imigrantes escolheram um lote de terra na região de "Pommeroda".

Heinrich e Johanna agora já no Brasil ainda tiveram os filhos Ida e Wilhelm Ramthun. Por sua vez, os filhos Hermann e Wilhelmina, que foram para os Estados Unidos, nem sabiam do destino do pai. Posteriormente, descobriram o pai no Brasil e Wilhelmina Ramthun escreveu, em 16 de abril de 1882 a primeira carta. Hermann Ramthun trabalhou inicialmente numa fazenda nos Estados Unidos com baixo salário, casando-se com uma humilde moça de nome Amélia Hilke, da região de Altura, no mesmo condado de Winone Country (Estado de Minnesota). Batalhador, conseguiu com muito esforço adquirir seu próprio lote de terra e constituiu razoável fortuna se mudando para a cidade de Aberdeen, (condado de Brown), no estado norte americano de Dakota do Sul.

Todos esses detalhes dos filhos que foram para os Estados Unidos e do pai que imigrou para o Brasil, quem nos conta é a bisneta do imigrante Ramthun, a Sra. Elvira Eggert (nascida Ramthun). Ela guarda com muito carinho fotos dos antepassados e um incrível acervo de cartas, todas em escrita alemã, denotando que naquela época os imigrantes já possuíam razoável formação.

Acervo Ervira Eggert/Registro de Hermann Ramthun já adulto num estúdio na cidade de Aberdeen nos Estados Unidos.

Sra. Elvira destaca que a separação dos filhos e pai na Pomerânia, certamente foi motivo de muito sofrimento. Os relatos de saudades encontrados nas cartas são emocionantes. Numa passagem em uma das cartas a filha Wilhelmina pede para os Ramthun de Pomerode que enviem sementes de flores dos jardins aqui do Brasil, pois semeando-as nos Estados Unidos, ao florescerem, teria uma lembrança de seu pai.
A troca de informações entre os Ramthun sobre a percepção de dois países, com climas tão diferentes, também se desdobram em peculiares observações que nos remetem ao século XIX. Os Ramthun do Brasil destacam o forte calor e os animais silvestres, por outro lado, os Ramthun dos Estados Unidos evidenciam as ondas de frio mencionando, por exemplo, numa das cartas que em pleno agosto (verão no hemisfério norte) as batatas congelavam dentro do porão da casa.

Acervo Elvira Eggert/Família Ramthun de Pomerode. Na esquerda, sentada a imigrante Johanna Pflanz Ramthun, e acima, na extrema direita em pé está Wilhelm Ramthun (filho do imigrante Heinrich Ramthun).

Ao ler as cartas, não é difícil imaginar o quão difícil foi a vida dos imigrantes Pomeranos, quer seja nos trópicos, ou nas vilas geladas dos Estados Unidos. Como no exemplo da família Ramthun, na época da imigração muitas separações de outras famílias também ocorreram, certamente o tamanho da saudade que se abatia sobre os ombros destes pioneiros é imensurável. Vale lembrar que ao longo da história a maior leva de imigrantes da Pomerânia foi para os Estados Unidos, e muitos, para a região de Minnesota.
Os imigrantes Ramthun são um claro exemplo da resistência e perseverança do Pomerano, pois em lugares tão distintos construíram suas casas (lutaram pelas suas propriedades), formaram suas famílias e deixaram um legado inestimável. Sra. Elvira é uma entusiasta da história da família e sem perceber se apaixonou pela Pomerânia, então era hora de conhecer as vilas de onde seu bisavô Heinrich Ramthun imigrou.

Elvira Eggert/Casa feudal em Piepenburg (Pomerânia) aos fundos e nos arredores os celeiros. Possivelmente frequentados pelo imigrante Heinrich Ramthun antes de imigrar ao Brasil.

Tendo uma filha (Elke) que mora na Alemanha, a realização deste sonho foi facilitada. A viagem ocorreu em maio de 2018, acompanhada de suas filhas e genro.

É preciso destacar que após a segunda guerra mundial, Regenwalde e toda aquela região da Pomerânia se consolidou como território Polonês, assim, a viagem compreendeu percorrer várias vilas daquele país. Passaram por Stettin (antiga capital da Pomerânia), por Plathe, Regenwalde, Naugard, Wollin entre outras. Mas conhecer as vilas onde a família Ramthun vivia era o grande objetivo, percorreram então, Natelfitz, Witznitz e Piepenburg.

Elvira Eggert/Sra. Elvira no centro com suas filhas Ethel e Elke. Nos fundos o rio Rega na Pomerânia, inspiração para o nome do bairro Rega na cidade de Pomerode.

Ela relata que observar aqueles vastos e planos campos, as igrejas centenárias, a casa feudal e seus celeiros e colocar os pés descalços naquela terra a encheu de emoção. Certo momento numa das vilas se sentou e em silêncio observou os campos, as casas e o cantar dos passarinhos e, com muita emoção, tentou imaginar como foi a vida de seus ascendentes nessas terras e as dificuldades que enfrentaram. Ela ainda destaca que ao longo da viagem pela antiga Pomerânia "se encontrou" várias vezes com o rio Rega, esse que percorre regiões como Regenwalde e Plathe, ou seja, arredores onde os Ramthun viviam na Pomerânia, e, por uma feliz coincidência, a Sra. Elvira mora no bairro Rega na cidade de Pomerode.
Elvira Eggert/Igreja em Natelfitz (Pomerânia), local onde o imigrante Friedrich Ramthun nasceu.

As cartas da família Ramthun nos mostram que a separação de uma família e sua consequente distância, não são suficientes para apagar os eternos laços estabelecidos entre os imigrantes e seus descendentes, e que, a preservação da história e cultura de um povo fortalece esse vínculo.

Acervo Ervira Eggert/Primeira carta escrita por Wilhelmina Ramthun em 1882 nos Estados Unidos e endereçada ao Brasil.



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