Pomeranos no Vale Europeu

Eirkraut e Osterwasser: tradições vividas desde a imigração

Genemir Raduenz, Edson Klemann e Johan Strelow
Foto: Genemir Raduenz
Na Europa os imigrantes usavam outros tubérculos para colorir os ovos, por exemplo, a beterraba. Para o Brasil trouxeram essa tradição e aqui encontraram o Eierkraut

Quando a Páscoa se aproxima, somos tomados por um sentimento de que é tempo de celebração. Trata-se de uma data carregada de manifestações culturais. A palavra Páscoa que tem origem do hebraico "pessach", significa "passagem". Na Páscoa judaica, remete à passagem da escravidão para a liberdade do povo judeu, no calendário cristão a passagem da morte para a vida (ressureição de cristo). Por sua vez, nas línguas saxônicas a palavra tem outra origem. No alemão, denominada de Ostern, em pomerano/Platt chamada de Ouster e ainda em inglês de Easter, são palavras também vinculadas com um momento de passagem, mas nesse caso a mudança de estação no continente europeu. Para os germânicos que inclui a região da Alemanha e antiga Pomerânia, o mês de março se caracteriza pelo início da primavera, momento em que ocorre a transição de dias mais frios e escuros para dias mais ensolarados e quentes.

A celebração dessa "passagem" de estações é comemorada há séculos e tem um lastro com a era pagã. Nesse período se cultuava a deusa germânica Eostre/Ostara. Ela estava relacionada à primavera e era considerada a deusa da fertilidade, existia inclusive a denominação do oestremonat, considerado o mês germânico para essa deusa. O culto à deusa da fertilidade está conectado à primavera, período que se inicia o semear e o cultivar da terra. Uma época em que presentear com ovos fazia parte da tradição de muitos povos, como os germânicos e os eslavos. O ovo está ligado à fertilidade, simbolizando a origem da vida. Da mesma forma, a simbologia do coelho ou lebre quanto à fertilidade, também estariam ligados a deusa Eostre/Ostara. Outros povos antigos como os persas e romanos já possuíam o hábito de presentear com ovos na primavera associando a época com o renascimento, florescimento e fertilidade. Em Pomerode, é uma tradição secular, os germânicos quando colonizaram essa região, trouxeram da Europa o costume de presentear com ovos coloridos na manhã de Páscoa. No início, o ovo era presenteado cozido, com a casca colorida e consumido naquela manhã especial.

Os imigrantes encontraram nos trópicos uma planta nativa que atendia perfeitamente a função do "tingimento do ovo", a denominaram de Eierkraut (planta/erva do ovo), pois ano a ano a mesma passou a ser utilizada para colorir os ovos no prenúncio da Páscoa. O processo consiste em separar o bulbo da folhagem, cortar o mesmo e colocá-lo em água fervente. Posteriormente mergulhar o ovo ou somente a casca deixando cozinhar por dois minutos. A coloração adquirida é um surpreendente roxo, extremamente característico da Páscoa de antigamente. Também é possível usar folhas e flores que são colocadas na casca sobre o qual é envolto um tecido mergulhando-se o ovo para o cozimento. Esse processo proporciona um decalque nas casquinhas de belo efeito estético. A pintura da casca do ovo com Eierkraut foi um precursor do que conhecemos hoje como ovos de Páscoa. Num processo evolutivo as casquinhas começaram a ser pintadas com tintas sintéticas e recheadas com balinhas, amendoim, entre outras guloseimas, e, mais tarde, os tão característicos ovos de chocolate. Elsira Ewald, pomerodense da localidade de Ribeirão Souto, lembra que quando criança sua mãe coloria os ovos com Eierkraut e na manhã de Páscoa os ovos eram consumidos no café da manhã. Para ela, era um momento único que ficou marcado em sua memória.

Genemir Raduenz/Planta Eierkraut que crescia nos campos de Pomerode. Muitas vezes nas lavouras era considerada uma erva daninha, no entanto, na época de Páscoa virava protagonista. Na foto ao lado vemos o tubérculo do Eierkraut cortado e pronto para ser colocado na água em fervura

A Páscoa em Pomerode sempre foi marcada por muitas tradições, e a pintura dos ovos com Eierkraut pode ser considerado o início e o elo para a atual e grandiosa festa de páscoa da cidade, denominada de Osterfest. A principal atração é uma enorme árvore (Osterbaum) com casquinhas naturais de ovos de galinha pintados, ou seja, a Osterbaum pode ser destacada como um simbólico adorno para toda a comunidade que expressa uma tradição secular de pintar ovos para a celebração da Páscoa.


Genemir Raduenz/Os ovos devem ser colocados dentro da água fervendo com a erva, após 02 minutos podem ser retirados, proporcionando uma coloração de um roxo vibrante

Mas além do tradicional ovo de Páscoa, outro costume secular desperta a curiosidade, trata-se da Osterwasser (água de páscoa). Um ato carregado com fortes crenças de que pode trazer beleza e saúde. A água deve ser coletada numa fonte antes do nascer do sol. A Pomerodense Locady Gall (nascida Zinnke) moradora da localidade do Ribeirão Herdt, lembra que sua avó e sua mãe tinham essa prática. Da mesma forma, ela também buscava Osterwasser na manhã de Páscoa. Quando solteira fazia isso no riacho da casa dos pais (Anna e Wilhelm Zinnke) que ficava na rua Leopoldo Blase em Pomerode Fundos, e depois, quando casou com Otto Gall continuou a tradição na localidade de Ribeirão Herdt. Sra. Locady relembra aos 86 anos: "deve-se acordar cedo, levar o jarro ou balde na mão direita, coletar a água no riacho com a mesma mão e proferir em nome do pai, do filho e do espírito santo. No caminho de casa novamente proferir em nome do pai, do filho e do espírito santo (ideal falar três vezes durante o ritual).


Acervo Locady Gall/Família Zinnke da localidade de Pomerode Fundos. Ao Centro sentados a Sra. Anna e Wilhelm Zinnke. Na esquerda a Sra. Locady Gall e seu marido Otto

Chegando em casa a água deve ser envazada em garrafas. É uma água que se conserva e pode ser usada para males que possam afetar as pessoas da casa. No próximo ano na manhã de Páscoa se coleta nova água". A Osterwasser é considerada uma água sagrada e para muitos uma superstição, é mantida numa garrafa e usada ao longo do ano como remédio. Atualmente algumas famílias na cidade ainda mantém essa tradição e tem a crença de que a água pascal os protegerá ao longo de um ano. A Páscoa simboliza a passagem da morte para a vida, o renascimento e a fertilidade de bons tempos e a esperança de um novo ciclo mais próspero.

Feliz Páscoa -- Frohe Ostern -- Fröilige Ouster 

*Artigo publicado no especial de Páscoa de 2018


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