Especial de Natal

A tradição do Weihnachtskäfer

21 Dezembro 2018 16:05:00

As cigarras anunciam que o Natal está chegando

Foto: Divulgação

O sentimento dos imigrantes nos primeiros Natais pode ter sido uma mistura de esperança e saudade da terra de origem que deixaram para trás. Na Pomerânia, o Natal tinha o estilo tipicamente europeu, com neve, bem diferente da temperatura encontrada nos trópicos, como também a comida, a fauna e a flora. As primeiras árvores de Natal dos imigrantes eram nativas e nada parecidas com os tradicionais pinheiros verdes cheios de neve, substituída por algodão, apenas para recordar. Mais tarde, o pinheiro araucária que é encontrado no Sul do Brasil, passou a assumir esse papel.

Aqui em dezembro é tempo de calor, e um dos maiores desafios dos imigrantes era conviver com os insetos. Entre estes se destacavam as cigarras e o seu canto. Uma das principais características desse inseto é o aparelho produtor de sons que está situado na base do abdômen e produz ruídos bem característicos, geralmente durante o dia, nas horas de maior incidência de luz solar, e também ao anoitecer. Há mais de um século, nas primeiras décadas dos imigrantes em solo brasileiro, os dias e as noites eram bem mais silenciosos, não havia energia elétrica (nada de tecnologia), quase não havia indústrias, ou seja, a maioria dos sons eram os da natureza, e nesse ambiente a cigarra assume um papel de destaque. Seu vigoroso e quase estridente som, que pode chegar a 120 decibéis, fazia parte do cotidiano dos imigrantes especialmente no verão.

Com o passar dos anos eles observaram que as cigarras começavam a intensificar seu canto especialmente próximo ao período do Natal (aumento da temperatura e incidência de luz), e aquele passou a ser uma espécie de prenúncio. O inseto passou a ser denominado pelos imigrantes de Weihnachtskäfer (besouro de Natal). Assim, a cigarra passou a exercer o papel de anunciar que era hora de preparar os doces de Natal (Weihnachtskuchen), de pensar na faxina da casa e do entorno, de começar a se preocupar com a árvore que seria utilizada e tudo mais.

A escritora Urda Alice Klueger em seu livro Crônicas de Natal, descreve "... fazer doces de Natal era um dos rituais do Advento. Eles eram feitos num domingo, quando toda a família estava em casa e poderia ajudar, e gastava-se um dia inteiro na sua confecção...". Ela destaca que de tarde vinha a melhor parte, depois dos doces assados era hora de enfeitá-los, uma receita própria de glacê era feita e todos tinham que ajudar a preparar. Os adultos se ocupavam principalmente em passar cuidadosamente o glacê em cada docinho, já as crianças ficavam encarregadas de enfeitar os doces com o açúcar colorido, e claro, a mesma quantidade de açúcar colorido que era colocado nos doces também colocavam na boca, deixando a "língua das crianças, azul, roxa, verde, vermelha...". Como o doce de Natal era uma coisa feita por quase todas as casas vizinhas e no mesmo dia, via-se as crianças com suas línguas coloridas e felizes por todo canto. Urda ainda ressalta que se ouviam as cigarras cantando nas árvores próximas, o que sinalizava o quão especial havia sido aquele dia.

O Weihnachtskäfer também era temido por boa parte das crianças, já que os pais muitas vezes associavam o som da cigarra ao Nicolau (Papai Noel), ou seja, o som era do Nicolau ou de "espiões" dele na mata que observavam o comportamento das crianças. Quem não se comportava no decorrer do ano teria que se "explicar" na noite de Natal, e também, realizar uma pequena oração na hora do encontro com o tão temido Nicolau. O educador e escritor Harry Wiese destaca que o Weihnachtskäfer "...era como se fosse um instrumento didático para a educação dos filhos. A cigarra era o invisível São Nicolau (Papai Noel) que espionava as crianças e de acordo com o comportamento de cada uma, resultavam os presentes colocados debaixo da árvore natalina na noite de 24 de dezembro...". Os pomeranos sempre tiveram uma forte ligação com a natureza, e quando aqui chegaram tiveram que se adaptar. Não imaginavam que uma cigarra batizada por eles de "besouro de Natal" pudesse exercer esse importante papel cultural e criar uma tradição que perdura por décadas, repassada de geração em geração. 


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