Pomeranos no Vale Europeu

Um Pomerano inquieto

Por Genemir Raduenz, Edson Klemann, Johan Ditmar Strelow e Cláudio Werling
Foto: Acervo: Doralice Meyer
Turbina utilizada num dos moinhos dos Schievelbein. Na extrema esquerda está Augusto e na extrema direita está Willy, ambos filhos do imigrante Wilhelm.

Aos olhos do mundo a América do Sul sempre foi considerada um lugar exótico, onde podemos encontrar florestas intocadas, tribos indígenas isoladas e vasta fauna selvagem. A exuberância da nossa natureza se tornou motivo de orgulho. No entanto, há 150 anos ouvir sobre indígenas e animais perigosos certamente intimidava. Era preciso enorme coragem para atravessar o Atlântico em busca do novo, do necessário, daquilo que não se encontrou na terra natal e que poderia dar muito certo, ou terminar muito mal. Inúmeras histórias de superação de imigrantes podem ser encontradas em diários ou em memórias familiares. Vamos explorar uma especial, pois nos oferece com ricos detalhes como eram os cenários onde os imigrantes se instalavam. Wilhelm Schievelbein nasceu em 06 de outubro de 1862, filho de August Johann Wilhelm Schievelbein e de Henriette Friederike Ehlert.

As referências mais remotas desta família são de 1700, citando o nome de Friedrich Schievelbein. A localidade da família na antiga Pomerânia é a vila de Zemmin. Curiosamente havia uma região da antiga Pomerânia que se chamava "Schivelbein", um condado próximo da região de Belgard (hoje território Polonês e denominado de Swidwin). Em 1881, Wilhelm se aventura sozinho num trem até a cidade portuária de Antuérpia (Bélgica).


Roland Ehlert/Wilhelm Schievelbein e Anna Samp Schievelbein com a filha mais velha no centro (Bertha) e o filho August no colo da mãe. O menino está de vestido, era costume na época usar as roupas dos irmãos (no caso da irmã mais velha).

Embarca num navio para o Brasil com destino ao porto de Santos, passando antes pelo Rio de Janeiro. Ao chegar na América do Sul, seu destino foi a cidade de Blumenau, mais especificamente a região da Itoupava Rega onde permaneceu por algum tempo. Num interessante registro encontrado no Arquivo Histórico de Blumenau, mais especificamente no periódico "Blumenau em Cadernos", Tomo I, número 08 de junho/julho de 1958, consta que em 15 de julho de 1883 "os bugres apareceram na propriedade de Wilhelm Schievelbein, em Itoupava Rêga, roubando gado e plantações". E ainda, no fascículo 03 de "Pomerode, sua História, sua Cultura, suas Tradições", do ano de 1987, que discorre sobre ataques indígenas que ocorreram na propriedade do colono "Schiffelbaier", há o seguinte destaque: "Era domingo, a família visitara um amigo morador do outro lado nas cabeceiras do Vale do Testo Rega. Os índios foram surpreendidos por duas meninas de aproximadamente 10 e 12 anos, Hedwig Flohr e Maria Zimdars. As duas foram brincar com outras duas meninas de sobrenome Grützmacher, residentes rio acima. Para chegar lá, precisavam atravessar a propriedade do Schiffelbaier e logo notaram um movimento estranho.

Voltaram correndo para casa e contaram aos pais que viram índios. Os pais reuniram então os vizinhos mais próximos e armaram-se com o que lhes estivesse à mão e foram de encontro aos invasores. Chegando ao local do "assalto" nada encontraram. Os índios já haviam se debandado, porém, deixando vestígios: nenhum animal doméstico vivo, aproveitaram a carne. Além disso, levaram todos os utensílios domésticos e roupas. Tão logo terminado o ataque, os índios trataram de seguir em frente, cruzando os morros que separam Itoupava e Testo Rega, hoje Morro Strassmann".


 Acervo: Doralice Meyer/No centro está sentado o casal Schievelbein rodeado pelos filhos, genros, nora e netos.

O fascículo ainda destaca que foi a primeira vez que se tem notícia de que os índios levaram todas as ferramentas de lavoura, as quais, acabaram sendo devolvidas à família "Schiffelbaier". Um surpreendente comportamento dos indígenas. Uma ressalva se faz necessária, nesses relatos encontramos a grafia do sobrenome do imigrante como "Schwifelbein" e "Schiffelbaier", algo aceitável considerando a época que foram registrados, e ainda, a pronúncia do sobrenome Schievelbein é um terreno fértil para variações, inclusive a versão 'Schiefelbein" com "f" também pode ser encontrada. Esses registros demonstram claramente as dificuldades enfrentadas por Wilhelm quando esteve em Blumenau, isso certamente o impulsionou para buscar outros ambientes. Ele seguia então para São Paulo, mais especificamente para Ribeirão Preto, buscando trabalho na colheita de café. Fez uma desagradável constatação, em 1883 encontrou trabalho nas fazendas dos cafeicultores, mas as condições eram análogas à escravidão. Desta forma, não aceitou o trabalho, e depois da decepção, de ainda encontrar essa realidade no Brasil apesar dos movimentos abolicionistas, Schievelbein parte para a Argentina, seguindo pelo porto de Montevidéu.


Acervo: Doralice Meyer/Wilhelm Schievelbein.

Na ocasião ocorria um surto de cólera na Argentina, então ficou por um tempo no Uruguai. Em seu diário, Schievelbein descreve que havia poucas terras para os colonos e muito caras, e ainda, o país passava por intermináveis revoluções. Destaca também que se observava um relevo com muitos campos. Já na Argentina havia relevante presença de germânicos, de forma predominante nas províncias de Buenos Aires, Santa Fé e Entre Rios. Schievelbein encontra fartura de trabalho, no entanto, por motivos desconhecidos teve seus bens apreendidos, os quais foram devolvidos depois de oito dias, posteriormente, seguiu viagem. Durante um tempo na Argentina, seu dinheiro acabou e voltou de navio para o Rio de Janeiro, seguindo de trem para São Paulo e permanecendo mais um ano. Depois de todas essas viagens por várias regiões da América do Sul, voltou para Blumenau onde imaginava definitivamente ficar.


Acervo: Doralice Meyer/Casa do casal Schievelbein em 1914 na Localidade de Bom Jesus (RS), onde também foi instalado um moinho.

Wilhelm Schievelbein sempre demonstrou inquietude e uma vontade de buscar o melhor. Mais uma vez, deixa Blumenau e decidi seguir mais ao Sul, mais precisamente para o sul do Estado do Rio Grande do Sul. Chega na colônia Santa Helena (atualmente um distrito da cidade de Pelotas) e compra terras em outubro de 1888. Logo tratou de construir uma choupana provisória. Em seguida, com a abundância da flora constrói uma casa de madeira confortável, comprando também cavalos e uma carroça. Paralelamente seus familiares chegam da Alemanha. Schievelbein tinha uma pequena casa de comércio em Santa Helena, por motivos desconhecidos se envolve com questões políticas num período que ocorria a Proclamação da República do Brasil. Registra em seu diário ter participado de uma "pequena revolução". Também destaca que foi preso e levado até a cidade de Pelotas.


Acervo: Doralice Meyer/Três filhas de Wilhelm Schievelbein e Anna Samp Schievelbein (1909). Da esquerda para direita: Martha, Bertha e Emma. Os nomes que o casal deu as filhas são uma homenagem às irmãs de Wilhelm, que respectivamente também eram Martha, Bertha e Emma.

Nesse período, de pré e pós proclamação, ele foi perseguido e teve seus bens saqueados. Outros imigrantes alemães da região, ao que tudo indica, também participaram deste movimento partidário à monarquia, pois num trecho dos manuscritos de Wilhelm ele destaca: "Deus salvou a Alemanha da República". Recomendado a sair de Pelotas por sofrer ameaças de morte, Wilhelm resolveu voltar para Blumenau, pelo menos por um tempo até que as coisas se acalmassem. Em Blumenau, se casa com Anna Samp, mais especificamente na vila de Pomerode. Depois de um tempo no Vale do Itajaí, o casal viaja para Rio Grande do Sul. Quando Wilhelm chegou em Pelotas, ele se surpreendeu com fato de que seus detratores ainda o procuravam. Com isso, passou vários meses vivendo no mato. Cansado de ser fugitivo, resolve vender sua propriedade na colônia de Santa Helena por um valor abaixo do necessário e adquiri uma propriedade na localidade de Picada das Antas, no município de São Lourenço do Sul (região povoada por grande maioria Pomerana). Depois de alguns anos novamente se desloca, e desta vez para a localidade de Santa Inês, na divisa entre os municípios de São Lourenço do Sul e Canguçu, lá constrói um moinho. Mais tarde, novamente migra, desta vez para a localidade de Bom Jesus que também fica no município de São Lourenço do Sul (RS). Construiu outro moinho, o qual supostamente não funcionou efetivamente, mediante isso, construiu um novo moinho em outra propriedade e, desta vez, a instalação é movida à turbina d'agua. Essa construção foi restaurada e permanece com os descendentes.


Acervo: Doralice Meyer/Moinho na localidade de Santa Inês (RS).

Com a fixação de sua residência nesta localidade, suas peregrinações findaram vindo a falecer em Bom Jesus no dia 30 de maio de 1941. O vínculo de Wilhelm Schievelbein com Pomerode se eterniza no momento que se casou com Anna Samp. A relação do casal Wilhelm Schievelbein e Anna Samp com a família Ehlert do Vale do Itajaí é fundamentada pelo aspecto de ambos terem parentesco. Roland Ehlert de Pomerode destaca que a mãe de Wilhelm (nascida Henriette Friederike Ehlert) tem parentesco direto com os Ehlert "daqui", na verdade, ela é tia do imigrante August Heinrich Julius Ehlert de Pomerode, nesse caso avô de Roland, logo, Wilhelm Schievelbein e o avô de Roland são primos. Por sua vez, Anna Samp é filha de Friederike Augusta Wilhelmine Mallü que era casada com August Samp e teve três filhas. Após o falecimento do senhor Samp, a senhora Mallü se casou com o avô de Roland, o imigrante August Heinrich Julius Ehlert. Aliás, a família Ehlert imigrou da Pomerânia alguns anos antes dos Schievelbein. Enviaram cartas estimulando a vinda, destacando que aqui havia terras. Ou seja, uma vez os Ehlert estando estabelecidos na colônia Blumenau, os Schievelbein incentivados também vieram. Inclusive há relatos de que a Família Ehlert da vila de Pomerode auxiliou durante uma semana os Schievelbein a construir sua primeira cabana (hütten) na colônia Blumenau, mais especificamente na Itoupava Rega.


Acervo: Roland Ehlert/O imigrante August Heinrich Julius Ehlert montado em sua mula em frente à Igreja Luterana da área central de Pomerode. August Ehlert e Wilhelm Schievelbein são primos. O destino reservou algo inusitado, ambos faleceram em 30 de maio de 1941.

Depois de terem se estabelecidos em Rio Grande Sul, o casal Schievelbein muitas vezes visitou os parentes de Pomerode, afinal era onde estava a mãe de Anna e ainda os primos de Wilhelm. As viagens do casal Schievelbein para Pomerode eram longas. De navio até Itajaí, depois com o vapor pelo rio Itajaí-Açú até Blumenau e de carroça de Blumenau até Pomerode. Roland destaca que em meados de 1901 a estrada para Pomerode já era carroçável, as primeiras de barro (o que era um enorme transtorno em períodos de chuva). Depois surge a indicação de colocar areia na rua, inclusive, cada dono de propriedade ficou responsável em colocar areia na estrada defronte a sua propriedade, assim, aos poucos, toda a estrada ficou mais transitável. Bem mais tarde, com a inserção do macadame, as condições melhoraram bastante. Roland destaca que as visitas do casal Schievelbein na propriedade Ehlert deixaram muitas lembranças na memória da família pomerodense. A trajetória do Pomerano, inquieto e incansável Wilhelm Schievelbein, nos mostra um pouco dos desafios que se apresentavam no caminho da maioria dos imigrantes, e que a perseverança e ousadia destes são inspiração até os dias atuais. 

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